"Não há formas, mas a Forma equilibrada e sutil; a sombra única em mil gamas de luz se deforma." Sérgio Buarque de Holanda

BEDUÍNOS


Através da tempestade de areia, era possível ver no horizonte a sombra dos dois nômades. Mohamed era comerciante e Kalyl o seu jovem empregado. Há dois dias no deserto, foram obrigados a interromper a viajem e montar acampamento para se abrigarem. Mohamed percebeu que Kalyl trazia menos bagagem do que o necessário.

- Kalyl, onde estãos as ânforas extras de água?

- Ficaram para trás em algum lugar do caminho senhor.

- Elas caíram e quebraram?

- Não senhor. Eu as esqueci em uma das paradas.

Mohamed, furioso, esbofeteou o rosto de Kalyl. O jovem empregado retirou-se da presença do patrão e permaneceu solitário observando o horizonte. Com os olhos rasos d´água, escreveu com o dedo na areia: "hoje meu amigo me esbofeteou a face."

Alguns dias adiante, os dois viajantes encontraram um oásis. Kalyl desceu do camelo e correu para molhar o rosto e matar a sede. Enquanto se refrescava, percebeu que Mohamed não estava ao seu lado fazendo o mesmo. Kalyl olhou para trás e viu Mohamed mirando com o arco em sua direção. Permaneceu imóvel quando a flecha eriçada passou por cima do seu ombro e acertou a cabeça de uma serpente que estava pronta para dar-lhe o bote. Kalyl tirou a adaga do alforje e escreveu na rocha: "hoje meu amigo savou a minha vida".

Mohamed ficou curioso com o gesto do jovem empregado.

- Por que você escreveu isto na pedra?

- Algumas memórias eu escrevo na areia, assim o vento as leva para a terra do esquecimento. No entanto, existem aquelas que eu escrevo na rocha, para que permaneçam. É preciso escolher com sabedoria.

Mohamed e Kalyl se cumprimentaram como bons amigos e continuaram a viagem.

(Baseado em ditado árabe).

3 Comments:

Éverton Vidal said...

Excelente.

Игорь said...

Olá , texto muito bom

O blogue é muito interessante :)

Parabéns

Anne Lieri said...

Uma história muito bonita!Queria seguir seu blog,mas não descobri como se faz!Abraços,

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