
Através da tempestade de areia, era possível ver no horizonte a sombra dos dois nômades. Mohamed era comerciante e Kalyl o seu jovem empregado. Há dois dias no deserto, foram obrigados a interromper a viajem e montar acampamento para se abrigarem. Mohamed percebeu que Kalyl trazia menos bagagem do que o necessário.
- Kalyl, onde estãos as ânforas extras de água?
- Ficaram para trás em algum lugar do caminho senhor.
- Elas caíram e quebraram?
- Não senhor. Eu as esqueci em uma das paradas.
Mohamed, furioso, esbofeteou o rosto de Kalyl. O jovem empregado retirou-se da presença do patrão e permaneceu solitário observando o horizonte. Com os olhos rasos d´água, escreveu com o dedo na areia: "hoje meu amigo me esbofeteou a face."
Alguns dias adiante, os dois viajantes encontraram um oásis. Kalyl desceu do camelo e correu para molhar o rosto e matar a sede. Enquanto se refrescava, percebeu que Mohamed não estava ao seu lado fazendo o mesmo. Kalyl olhou para trás e viu Mohamed mirando com o arco em sua direção. Permaneceu imóvel quando a flecha eriçada passou por cima do seu ombro e acertou a cabeça de uma serpente que estava pronta para dar-lhe o bote. Kalyl tirou a adaga do alforje e escreveu na rocha: "hoje meu amigo savou a minha vida".
Mohamed ficou curioso com o gesto do jovem empregado.
- Por que você escreveu isto na pedra?
- Algumas memórias eu escrevo na areia, assim o vento as leva para a terra do esquecimento. No entanto, existem aquelas que eu escrevo na rocha, para que permaneçam. É preciso escolher com sabedoria.
Mohamed e Kalyl se cumprimentaram como bons amigos e continuaram a viagem.
(Baseado em ditado árabe).
BEDUÍNOS
Postado por Eduardo Zechini da Silva às 17:20
Subscribe to:
Postar comentários (Atom)
3 Comments:
Excelente.
Olá , texto muito bom
O blogue é muito interessante :)
Parabéns
Uma história muito bonita!Queria seguir seu blog,mas não descobri como se faz!Abraços,
Postar um comentário