"Não há formas, mas a Forma equilibrada e sutil; a sombra única em mil gamas de luz se deforma." Sérgio Buarque de Holanda

BILHETES II

Eu escrevi bilhetes de amor. Escrevi linhas que falavam da minha angústia e do meu desespero. Escrevi cartas com mentiras e verdades tentando aproximar o meu eu da minha razão. Eu fui fundo nas palavras dos bilhetes não lidos. Esquecidos na porta da geladeira. Como aquele que avisava para desligarem o fogo do feijão antes do incêndio consumado. Eu escrevi bilhetes conotativos com idéias desencontradas e palavras sem sentido, cujos significados desconotativavam o resumo da história. Escrevi bilhetes sem memórias ou lembranças. Sem esperanças, sem pudores. Falava dos meus amores como falo de futebol. Escrevi bilhetes não postados, esquecidos nas gavetas e escaninhos de um cérebro em colapso. Fui relapso, preguiçoso, fui fugaz.

Recebi bilhete azul me apontando a porta da saída. Na hora da despedida um bilhete de apoio e consolo. Li bilhetes de artistas nos versos das canções. Bilhetes de corações apaixonados. Cartas quilométricas desconsiderando a distância entre seus destinatários. Bilhetes com relicários e um passado no papel. Bilhetes de uma vida, uma encarnação não lembrada, nas sessões de regressão no divã de um analista. Um que veio do florista com as rosas vermelhas e amarelas. Este estava perfumado. Bilhetes deixados na mesa, nos correios, no caderno ou no bolso. Bilhetes, bilhetes, bilhetes, que teimo em ler ou escrever com a caneta já falhando. A tinta acabando no bilhete que deixo agora supurando a ferida. Não conto a minha história, só me despeço da vida.


5 Comments:

Éverton Vidal said...

Muito bom!
De certa maneira é um manifesto, enquanto resumo do que vivemos e escrevemos aqui.

Éverton Vidal said...

E a imagem cara.
Muito phoda. Muito phoda mesmo.

Zélia said...

Adriano, eu adorei!!! Acho que passei a minha vida escrevendo bilhetes. Ufa! Há um tempo escrevia muito mais bilhetes que hoje. Mas, hoje, ainda os faço. Os bilhetes deixam a vida muito mais poética.

:)

Glaucia said...

Bilhetes 'esquecidos nas gavetas...'

Perfeito isso, Adriano!
Seu texto é tão forte e bonito que dói!
Amei!

Abraço.

Leandro Neres said...

Mto forte, amigo!!!
Vc manda mto bem, rsrs
A foto mto forte, e os sentimentos em bilhetes são sempre a pura verdade, ou verdades escondidas...
mto bom
abraços!

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